quarta-feira, maio 14, 2008

Brigida Baltar e os instântaneos do tempo - por Tatiana Portela







“Para instaurar o reino da paz, não é em absoluto necessário destruir tudo, nem dar nascimento a um mundo totalmente novo; basta deslocar apenas esta xícara ou este arbusto ou esta pedra, fazendo o mesmo para cada coisa.”
Walter Benjamim


O que vemos é mediado pela nossa experiência. Desta maneira a fotografia pode ser entendida como uma forma de expressão visual do real inatingível. É ver uma ilusão do identificar-se entre a objetividade material e o seu sujeito. E para falar disso as fotografias escolhidas para este trabalho são do Projeto Umidades realizado pela artista brasileira Brígida Baltar entre 1994 e 2001.
Neste Projeto, através de uma série de ações e fotografias, Brígida coletou, em recipientes de vidro, elementos naturais, transitórios e efêmeros, como a neblina, o orvalho e a maresia. Para coletar estes elementos ela carregava frascos delicados e transparentes nos bolsos de uma roupa confeccionada em plástico-bolha que ela mesmo desenhou. Esta experiência, que acaba por ser sensorial, se inscreve delicadamente entre os domínios da materialidade e da imaterialidade.
Ao me deparar com as imagens fotográficas deste Projeto penso que a artista tentou palpar o ínfimo e também reter o transitório. Parece até que em suas fotos o horizonte está se desfazendo, na mesma medida que a névoa matinal. Acredito que de certa forma estas imagens fotográficas acabam por ser uma crítica à velocidade da sociedade atual e à sua desordem sem fim; mas também acaba por ser um sussurrar em meio àquele espaço inebriante da mata cerrada.
Em suas coletas a artista explora a memória e a afetividade geradas no evento, como as lembranças de odores, da temperatura, dos sons e mesmo de sentimentos, como prazer, medo ou melancolia. Porém, para o espectador que conhece apenas as fotografias geradas por esses procedimentos, essas ações parecem realizar-se fora do espaço e do tempo, inseridas em uma atmosfera de sonho e de fábula. E a respeito do caráter de fábula presente em suas imagens, Lisette Lagnado[1] diz:

A fabulação é o operador de toda a obra de Brígida Baltar. Roupas especiais e instrumentos, por exemplo, foram confeccionadas para acompanhar as coletas de neblina. Funcionam como equipamentos de garantia contra o devaneio sem compromisso com o real e o simbólico. É bom prestar atenção que a criança, quando inventa um planeta, não se contenta com as idéias e procura em seguida os objetos para dar concretude à sua empreitada.

Pelo fato das fotografias terem sido realizadas ao ar livre, fora da cidade, está em jogo a busca de uma espécie de espaço ideal de existência, um pós-paraíso dessacralizado, palco de eventos de ação e movimento, onde as encenações nunca se repetirão. Lugar sem retorno, efetivação de puras singularidades sem volta. Quando olhamos sua imagens elas nos promovem um certo distanciamento sensível da experiência vivida por quem realizou a coleta.
Os trabalhos de Brígida Baltar se abrem à memória do outro e se fazem experimento comunal, segundo a artista: "...é o mistério das coisas, do tempo, do espaço íntimo. Acho que essa ação diz do imprevisível, dos acasos, do que não se sabe. Tem uma coisa que eu descobri quando comecei a coletar: quando você chega perto da neblina, ela não está mais lá (pelo menos tão densa) mas mais adiante. Isso traz também outros significados, alguma coisa que nunca vai ser apreendida"[2].

Desta forma, as coletas de umidades se inscrevem em temporalidades poéticas distintas. A coleta da neblina, que é realizada em meio à nevoa cerrada, parece ocorrer num tempo suspenso e imóvel. A coleta de orvalho sugere, pelas roupas que veste, e pelos objetos coletores que usa, ter sido realizadas num instante por vir ainda. Na coleta da maresia é evocado sutilmente o passado; não só as roupas de coleta lembram trajes de banho antigos, mas também a tênue luz azulada e do céu aberto que encobre, funciona quase como um filtro nostálgico.

E esta luz que evoca me faz lembrar as fotografias de Alfred Stieglitz, fundador da Camera Work no início do século XX. Em suas imagens existia uma necessidade pela “artesania”, de se envolver manualmente com o processo da revelação das fotografias, o que de certa forma acabou por trazer um certo mascaramento, uma dissimulação de um real fotográfico para se aproximar da arte.

Segundo Patrícia Rodolpho, “as cenas vaporosas, o flou, e a visão de um cotidiano envolto pela névoa predominavam entre a produção pictorialista, Stieglitz enfocava a cidade mergulhada na neve, na noite e na umidade da chuva. São exemplos deste período Winter, Fifth Avenue (1893) e The Street - Design for a Poster (1896)” [3]. O processo de Brígida é diferente de Stieglitz, porém ambos nos evocam um espaço de luz inebriante, do fantástico do quimérico.
Penso este Projeto fotográfico de Brígida como a inscrição de um processo, a sobreposição entre uma ação e a captura da imagem fotográfica. Desta forma acredito que a fotografia não funciona somente como um registro, nem tampouco como fim. A fotografia amplia uma experiência aparentemente singular, pensando-se também como um fazer experencial. Assim, o ato de criação se transforma na atividade de traduzir e decifrar possibilidades do olhar. E como afirmou Philippe Dubois[4]:

[...]a foto é instrumento indispensável para seu trabalho, não apenas no plano técnico de construção, mas também ( e sobretudo) do ponto de vista simbólico: a obra elabora-se, isto é, faz-se e pensa-se pela fotografia (a partir e por meio dela), cabe a cada artista investi-la de seu universo singular.

Por fim é possível concluir, longe de afirmar que a interpretação da obra se fecha aqui, o filme em 16mm documenta e é, em sua essência, junto com as fotografias, o único traço permanente, embora fragmentário, do Projeto em andamento. Suas fotos tratam de um olhar que possui a delicadeza de perceber que, em tempos de estardalhaço, as pequenas coisas é que parecem estar falando mais alto.

É preciso parar – para olhar – sentir e perceber.

[1] Esta nomenclatura – fabulação – foi usada por Lisette Lagnado para designar um universo característico do trabalho de Brígida Baltar, no texto O processo de fabulação (2004), sobre o filme da artista intitulado Maria Farinha.
[2] Site da artista
[3] Rodolpho, Patrícia. Revista Studium 14. A era dos arranha-céus: as transformações urbanas por intermédio das fotografias de Alfred Stieglitz e Alvin Langdon.
[4] DUBOIS, Philipe. O ato fotográfico e outros ensaios, p.278.

Tatiana Portela é graduada em Artes Visuais pela UEL - Universidade Estadual de Londrina e, atualmente cursa a especialização em Artes, Multimeios e educação, na UNICAMP.

3 comentários:

Anônimo disse...

Essa Tatiana Portela sabe das coisas. Aprendi muito com ela. Feliz de tê-la conhecido, saudades..
Abraço, Algacir.

TAtIana POrTEla disse...

Esse Almeida! Grande Almeida! Faço das suas palavras as minhas. Obrigada por tudo. Espero poder estar perto de vc novamente. Bjos

Emanuel Monteiro disse...

pesquisando sobre a Brígida, seu blog foi a segunda opção que apareceu, realmente, belo post.
abraços.